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Full text of "Laudelinas VII"

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ELINASE 


VOL. 1N 7 
2021 


NA LIRA DAN 








a EXDEDICNC 
LAUDELINAS 





VOLUME 1. NÚMERO 7.2021 
ISSN 2675-6803 
SELO EDITORIAL MIRADA 
RECIFE - PERNAMBUCO 


EDITORA CHEFE CAPA 
Taciana Oliveira Fani Feldman por Águeda Amaral. 


CONSELHO EDITORIAL EO POCDAL ISO 
Argentina Castro Fani Feldman por Águeda Amaral 
Liliana Ripardo (p.14) 
Taciana Oliveira o 

Agueda Amaral (p. 46-47) 
BESIGNER EDITORIAL Picnic on the Esplanade, Boston 
Rebeca Gadelha (1973) por Nan Goldin (p. 14-15) 


Untitled (from Rapture) (1999) por 
Shirin Neshat (p. 34-35) 


Marcados (1981-1983) por Claudia 
Andujar (p. 49) 





“ 
“Eu não tereia minha vida reduzida. Eu não vou me curvar ao 
capricho ou à ignorância de outra pessoa.” 


Bell Hooks (* 25.09.1952 + 15.12.2021) 


A JIN E TR 


APRESENTAÇÃO 


Taciana Oliveira 


Laudelinas se solidifica como um espaço de resistência, uma revista que abraça a 
causa feminista em sua diversidade de pautas. Nela ratificamos nosso compromisso 
com a democracia, o meio ambiente e os movimentos sociais. 


Convidamos vocês para a leitura da nossa última edição do ano: uma publicação 
conduzida por vozes atuantes na sua profusão de gêneros e formatos artísticos. Em 
um tempo pontuado por ataques às instituições públicas e ao bom senso, combater o 
fascismo é, sobretudo, respeitar e preservar nossas identidades. 


A artista mexicana, Frida Kahlo, destacava: A revolução é a harmonia da forma e 
da cor e tudo está e.se move sob uma única lei: a vida. Ninguém se aparta de ninguém. 
Ninguém luta por si mesmo. Tudo é um, um é tudo. 


Somos todas Laudelinas. 





ÍNDICE 


APRESENTAÇÃO 


MULHERES-ÁRVORE 


DENTRO DE CASA 
Adriane Garcia 


ENTRE SOBRAS E MIGALHAS: 


UMA IDENTIDADE DE FOME 


TRAVESTI 
Uma Reis Sorrequia 


QUEM TEM MEDO DE 
UMA ESCRITORA LÉSBICA 
Dia Nobre 


[DUM LUGAR ÍNTIMO 
DO ESPANTO] 


POÇÃO INSUSTENTÁVEL 
calí boreaz 


Bruna Sonast 
SUGESTÃO DE LEITURA: 


AS VOZES DA LIBERTAÇÃO 
Patrícia Gonçalves Tenório 


10 


12 
+3 


16 


21 
a 


24 


25 


NIHIL 
AGULHA 
SER- P-ENTE 
Barbara Assim 


OBSESSÃO 
Alê Motta 


É MENINA 
Carla Guerson 


MEA CULPA 
Milena Martins Moura 


TRECHO DO LIVRO 
“O DIÁLOGO” 
Luizza Milcezanowski 


QUASE TARDE 
Germana Accioly 


PARTICIPARAM DESTA 
EDIÇÃO 


28 
32 
33 


30 


31 


34 


36 


38 


42 





MULNERES-ÁRVORES' 


Adriane Garcia 


Queremos estar tão verdes 
Que os macacos pulem em nós 


De galho em galho 


Que as formigas subam em nós 
Arranquem nossas folhas 


E levem para suas colônias 


Nós desfolhadas 
Aguardaremos a próxima chuva 


E com alegria daremos brotos 


Ao mundo dos pássaros 
Ao mundo dos répteis e 


Dois cogumelos nascerão em nossas 


[bocas 


Seremos verdes e mulheres 

Até mesmo os homens 

Tendo espalhado tanto cinza 

Seremos verdes e úmidas 

Feito os sapos que visitarão os nossos 
[dedos 

Feito as cobras-cipós enroladas em 


[nossos troncos 


Não teremos qualquer aflição 
Quando formos verdes 


E nos nascerem frutos cor-de-rosa. 


* “Mulher-árvore” e “dentro de casa” são dois poemas do livro Estive no fim do mundo e lem- 


brei de você (Editora Peirópoles, 2021) 


DENTRO DE CASA 


Quando o pantanal queimou Nas fotografias que chegavam 
Quando o pantanal foi queimado Eu omitia aquelas 
Tive que mostrar para minha filha Que mais nos feriam 


Cada onça recuperada 

Eu omitia aquelas que 
Tentei esconder, mas a fumaça Nos envergonhavam 
Desceu do Mato Grosso Como raça. 


Até que deixou cinza 


Belo Horizonte 


a Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Hori- 
zonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio 
Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome 
do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes 
(ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem 
(col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 
7 2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemória dos bois 
P (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, (ed. Caos & 
Letras, 2020) e Estive no Fim do Mundo e lembrei de você, 
(ed. Peirópolis, 2021). 





EN RE GOBRÃO 
E MIGALHAS: 


UMAS LDENTIDADEÇDE ron 


Uma Deis Storrequia 


Toda noite, enquanto prepara o jantar, Dona Maria escuta sua filha dizer: 
- Estou morta de fome! 


A menina vem chegando da rua, batendo o portão, e já vai logo gritando aos qua- 
tro cantos que está faminta. Ainda que sua mãe lhe prepare um banquete parece que 
nunca lhe é suficiente. O prato tem de tudo um pouco: arroz, feijão, carne, legumes, 
salada e farofa. Comida caseira de gente humilde. Volta e meia mainha lhe faz um 
agrado e prepara uma sobremesa ou suco natural como ela gosta. Já ajeita a marmita 
dela também para o dia seguinte. Elas assistem qualquer coisa na T'V, proseiam sobre 
seus dias e riem juntas - é jeito delas de amortecer o cansaço do dia a dia. Antes de 
irem deitar Dona Maria e sua filha preparam juntas um chá e beliscam alguns biscoi- 
tos. 


De manhã o saco sem fundo que é sua filha acorda com o estômago roncando e 
dizendo: 


- Mãe! Estou com fome! 


Dona Maria vai montando a mesa do café com o que tem, com o que vai encon- 
trando. A água do café está fervendo. Ela aproveita para ir arrumando a bolsa, pois 
tem que ir trabalhar. Coa o café rapidinho e vai saindo: 


- Filha, o café tá mesa. Tchau. Fica com deus viu. 


Amélia está na cama lutando contra o sono quando ouve sua mãe se despedir. 


Deveria ter despertado meia hora antes, mas foi prorrogando o alarme em 10 e 10 mi- 
nutos. Levanta de supetão, pois conhece a menina preguiçosa que é. Se não pular da 
cama, provavelmente, irá se atrasar como sempre. Enrolada que só ela. 


Após se arrumar, meio que sem tempo, Amélia senta para tomar o café que sua 
mãe deixou preparado. Reclamona, não bebe o café já morno. Come um pão com 
manteiga, um pedaço de bolo e busca algo para beber na geladeira. Tem um restinho 
de suco da janta de ontem. Pega uma maça para ir comendo no caminho, confere a 
bolsa, vê se tá tudo certo e assim começa seu dia. 


Amélia é uma travesti. 


TRAVESTI 


Uma Deis Sorrequia 


RR E obra sem término 
O ser travesti flui 


Estou travesti 


E Quando tu vê 
Não nasci travesti 


Já não é a mesma 


A sociedade me gritou: travesti! 


: Não existe UMA travesti 
Me identifiquei 


Pois cada travesti é UMA 


; Somos uma legião 
Estou me fabricando 


Travesti é processo 


Uma Reis Sorrequia nasceu e se criou em Sorocaba, in- 
terior de São Paulo. Morou em Curitiba (PR), Córdoba 
(ARG) e Recife (PE), e, atualmente, mora em São Pau- 
lo capital. É autora do poema “Eu era uma menina e não 
sabia”, publicado pela Vivara Editora Nacional, na obra 
Antologia Poética, Sarau Brasil 2019. Fúria Travesti é o 
brado de Lohana Berkins que convoca todas as travestis à 
luta. Uma está arte-educadora no Museu da Língua Por- 

RE, | tuguesa. Mestranda em Comunicação e Práticas de Con- 
sumo COM ei SP). Cursando o aperfeiçoamento em Infâncias e Direitos 
Humanos (CLACSO). Licenciada em Geografia (UFSCar-So). Travesti artivista. É 
viciada em café, apaixonada por padarias, ama vinho e é chocólatra. E-mail para con- 
tato: uma.sorrequia(Dgmail.com. Instagram: (Dfuriatravesty. 











x 


QUEM TEM MEDO DE' UMA 
ESCRITORA LÉSBICA? 


Dia Nobre 


Foi a partir da literatura que o femi- 
nismo se tornou uma questão importan- 
te para mim. Apesar de ter sido leitora 
de Clarice Lispector na adolescência e 
meu livro preferido ter sido escrito por 
uma mulher (A casa dos espíritos, Isabel 
Allende), quando eu pensava sobre litera- 
tura vinham à minha cabeça, majoritaria- 
mente nomes de homens/escritores. 


O problema se agravava quando eu 
considerava a produção de mulheres ra- 
cializadas e mulheres LBTQIAP+, ou 
seja, mulheres que estão fora da bolha 
heteronormativa-branca-cisgênera-rica- 
-cristã: “A lésbica de cor não é somente 
invisível — ela não existe”, diz Gloria Al- 
zandua, escritora chicana (2000, 229). 


Quando fazemos um recorte mais 
específico, como o da sexualidade, por 
exemplo, o apagamento se adensa. Re- 
gina Dalcastagné em uma pesquisa de 
fôlego apresentada no livro ”Literatura 
Contemporânea Brasileira: um território 
contestado” (2012), demonstrou, em uma 


análise que envolveu 258 obras publica- 
das ao longo de 14 anos (1990-2004), que 
72,7% da autoria era masculina. Quando 
se tratava de representatividade LGBT, 
apenas 3,9% eram ou apresentavam per- 
sonagens homossexuais, sendo que, entre 
estes, 79,2% eram de homens gays. 


Quando eu proponho um recorte sobre 
esse grupo, de mulheres lésbicas ou sáfi- 
cas, eu estou apontando a falta de repre- 
sentatividade dentro da literatura. Esses 
são os modos como a dominação mascu- 
lina se manifesta e muitas pessoas sequer 
questioham essas estratégias de controle. 
As mulheres foram historicamente pri- 
vadas de uma existência política e esse 
apagamento se agrava quando tratamos 
de grupos que escapam às normativida- 
des impostas: “As lésbicas tem sido his- 
toricamente privadas de uma existência 
política, por sua “inclusão” como versão 
feminina da homossexualidade masculi- 
na, porque ambas são estigmatizadas, é 
apagar mais uma vez a realidade das mu- 


lheres” (Rich, 2019, 66). 


Até quando existe certa representa- 
tividade homossexual, esta prioriza os 
grupos masculinos, daí a importância de 
diferenciar a sexualidade feminina da 
masculina, como reforça Adrienne Rich. 
Por isso, a necessidade de ainda marcar- 
mos essa produção específica: “há uma 
lacuna no campo literário quanto à auto- 
ria e representação da homossexualidade 
de mulheres na literatura, lacuna promo- 
vida por esquecimentos e apagamento” 
(Polesso, 2018, 2). 


Ao considerarmos a sexualidade das 
autoras, retiramos essas mulheres do lu- 
gar de não-existência e, principalmente, 
questionamos essa visão mística da arte 
(ainda seguindo o pensamento de Rich) 
que faz com que ela seja considerada 
como dom e vocação e a destitui de seu 
caráter político: “O texto do poema não 
deve ser lido como algo separado da vida 
cotidiana [,,,] A poesia está em continui- 
dade histórica e, não, acima da história”, 
nos diz Rich (2019, 68) 


Na minha adolescência, vivida nos 
anos 2000, eu não tive referências de au- 
toras lésbicas uma vez que as obras de 
autoras assumidas não eram difundidas. 
O meu primeiro contato com uma autora 
que tratava en passant sobre relaciona- 
mentos homoafetivos foi com a escritora 
Ana Cristina César (1952-1983) que era 
bissexual. Acredito que a dificuldade de 
encontrar essa experiência na literatura, 


bem como nas artes de modo geral, di- 
ficultou o meu próprio movimento de 
autodescoberta. A falta de referências 
na minha adolescência, fez com que eu 
crescesse apenas com modelos hetero- 
normativos de família e relacionamentos 
que conflitavam com meu modo de ver o 
mundo. 7 


Se pensamos o que define a literatura 
lésbica, creio que posso dizer que é uma 
questão de autoria, ou seja, é uma litera- 
tura produzida por autoras lésbicas que 
criam recursos de identificação ou repre- 
sentatividade para outras mulheres lésbi- 
cas. 


Não se trata mais somente de escrever 
sobre o amor entre as mulheres, saídas 
de armários e descoberta da sexualidade, 
temas comuns nas obras de autoras pio- 
neiras como Cassandra Rios (1932-2002), 
Vange Leonel (1963-2014) e Karina Dias 
(1979) que foram extremamente necessá- 
rias para a pavimentação dessa literatura 
que hoje busca naturalizar a existência 
lésbica. 


Hoje, no mercado contemporâneo 
voltado para as autoras LBTQUIAP+ se 
destacam autoras como Natalia Borges 
Polesso (1981) cujas obras dão protago- 
nismo às personagens lésbicas, mas sem 
fazer disso o cerne das tramas. É tam- 
bém o caso de Desmemória, romance da 
escritora Thalita Coelho (1991), semifina- 
lista do Prêmio Jabuti em 2021 que narra 
a história de Vic, uma mulher capaz de 


roubar as memórias daqueles que o cer- 
cam, prejudicando a saúde destes, inclusi- 
ve da sua companheira, Ana Cristina que 
no início da narrativa está em coma. 


No Brasil, o Clube Lesbos criado em 
2017 por Sol Guiné e Lidia Bizio na cida- 
de de São Paulo surge como um espaço 
importante para a leitura de obras de au- 
toras lésbicas e hoje possui nove clubes 
em várias capitais do Brasil. A existência 
do clube que já teve como mediadoras, 
autoras como Cidinha da Silva e Cecília 
Floresta, demonstra como é importante 
haver espaços seguros para mulheres que 
querem ler e estudar obras com as quais 
se identificam. 


Eu fui mediadora do Clube Lesbos 
na cidade de Petrolina, Pernambuco em 
2019 e uma das coisas possíveis de per- 
ceber nos encontros era o sentimento de 
acolhimento e representatividade que as 
participantes experimentavam. O Clube 
acabava funcionando como um espaço de 
compartilhamento de experiências que 
transcendiam a questão da descoberta. 
Ali eram problematizadas a lesbofobia e o 
preconceito, mas também questões como 
a maternidade, corpo, desejos, afetos, etc.. 


A literatura é política. 


Ao ler mulheres LBTQUIAP+, eu 
marco o meu lugar de existência. Ao prio- 
rizar a escrita dessas mulheres eu estou 
dizendo ao mundo: o seu projeto de nos 
apagar não venceu. 


Estamos aqui. Existimos. Resistimos. 
Aceitem. 


Referências 


ALZANDUA, Gloria. Falando em lín- 
guas: uma carta para as mulheres escri- 
toras do terceiro mundo. Ver. Estudos Fe- 
ministas. ANO 8, 1º SEMESTRE 2000. 
Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/ 
index.php/ref/article/view/9880 


DALCASTAGNÉ, Regina. Literatura 
Contemporânea Brasileira: um território 
contestado. São Paulo: Editora Horizonte, 
2012. 


POLESSO, Natalia Borges. Geografias 
lésbicas: literatura e gênero. CRIAÇÃO 
& CRÍTICA, n. 20, 2018. Disponível em: 
https:/www.revistas.usp.br/criacaoecriti- 
ca/article/view/138653 


Entrevista com Natalia Borges Poles- 
so no Universa. Disponível em: https:// 
www.uol.com.br/universa/noticias/reda- 
cao/2021/05/26/autora-de-7-livros-com- 
-personagens-lesbicas-rejeita-ideia-de-te- 
matica-lgbt.htm?cmpid=copiaecola 


RICH, Adrienne. Heterossexualidade 
compulsória e existência lésbica. Rio de 
Janeiro: A Bolha Edições, 2019. 


Dia Nobre é escritora e Ph.D em História. Natural do 
Cariri cearense, atualmente trabalha em Petrolina, Per- 
nambuco, como professora universitária desenvolvendo 
projetos ligados à literatura, história, lesbianidades e fe- 
minismo. Publicou dois livros de não-ficção, O teatro de 
Deus (Ed.UFC, 2011) e o premiado Incêndios da Alma, 
(Multifoco, 2016), tendo recebido três prêmios por este 
último, incluindo o Prêmio Capes de Teses (2015). Seu 
| primeiro livro de poemas, Todos os meus humores, foi 





publicado em 2020 pela Editora Penalux. Participa ainda das Antologias Cole- 
tânea VISÍVEIS — I Anuário Filipa Edições e Antes que eu me esqueça — 50 au- 
toras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021). Em 2021, lançou o li- 
vro de ficção No útero não existe gravidade, finalista do Prêmio Mix Literário. 











DEM [UGARVINEIMO 
DO ESPANTO | * 


cali boreaz 


no Vazio pachorrento que te fura 
por ali passa a centelha 
e enquanto passa 


dilata-o 


* “[Dum lugar íntimo)” e “Poção Insustentável” são dois poemas do livro do livro tesserato 
(Caos & Letras, Brasil, 2020) 


21 


POÇÃO INSUSTENTÁVEL * 


quase que passo por uma poça 
uma pequena poça de água 

num qualquer meio de rua da cidade 

tantos de nós contemplam rios o mar a chuva 
quantos contemplaram um dia uma poça 

escura suja, € rasa 

mesmo assim espelha meu rosto, a poça 

sinto generosidade nesse pequeno gesto 

e então demoro-me em sua toda pequenez 

em seu silêncio esquecido aos pés da cidade 

em seu contorno que se sabe improvisado 

vejo então que é a poça que me observa 

rios mar chuva passam 

ex-correm a cada instante que passa — não a poça 
a poça demora-se conserva-se é 
vejo que chega a olhar-me com altivez 

uma profundez reversa 

vejo que me analisa 

águas que fluem não fazem esse tipo de coisa 

não estão nem aí 

quase desvio o olhar, mas mantenho 


quero ver até onde vai a rasa poça 


que me atrasa assim 


a bicicleta passa e liberta a poça seja como for, 
que fica do meu tamanho estou aqui e 
avanço não posso 


sacudindo a poça de mim 
ou — é a poça que me sacode de si mais adiar 


e o mundo é que recuou isso 





5. * calí boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direi- 
| N to, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. 
=" Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua 
e literatura romenas e tradução literária. No virar de 
2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para 
viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e 
ao ofício do teatro. Traduziu do romeno os romances 
O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal, 2010], de 
Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, 
Brasil, 2012], de Mihai Zamfir. Tem dois livros de poesia: outono azul a sul [ed. 
Urutau, Portugal & Brasil, 2018/19], um relato poético do exílio e da clandes- 
tinidade, com posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António 
Martins-Ferreira; e tesserato [ed. Caos & Letras, Brasil, 2020], uma reunião de 
tentativas poéticas acerca da suspensão e do deslocamento na imobilidade. Seu 
conto islandeses integra a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle [2019]. 
Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, por- 
tuguesas, galegas e mexicanas, bem como em exposições de Portugal e da Índia. 
Criou e apresentou em 2020, para o Midrash Centro Cultural, o programa online 
de poesia atual ainda somos muito novos para escrever estes poemas. Interpreta 
seus poemas em espetáculos poético-musicais — jam poetry sessions — e em for- 
ma de videopoemas. [casas virtuais: caliboreaz.com | instagram.com/caliboreaz] 


Ê 


24 


Eruna tonast 


Ela olha nos olhos. Aqueles olhos de quem olha de dentro de uma canoa sobre águas 
paradas, como se fossem o próprio tempo. Naufrágio. Os sentidos se perdem, mas a 
gente nunca sabe quando. É assim, cai em si, e já não estão mais lá. A mulher pensa 
que a cidade já se esgotou, é preciso partir em novas embarcações. E ainda assim, e 
por isso mesmo, fica, na areia da praia, olhando os olhos que olham de dentro de uma 
canoa sobre águas paradas, nessa direção absurda do não saber por onde começar. 
Aqui, as águas são contrárias. E é que dizem que se encontrar é a única forma de amor 
válida, mas ela mesma só se perde, entre os tantos (des)encontros de estar. A mulher 
quer uma bússola, uma rota, uma solução, que jogue no mar cada uma de suas pala- 
vras. 


E o mar engole, 


para que os olhos já não vejam nada, na esperança e no horror, de quem só sabe olhar 
pro fundo. 


Bruna Sonast é escritora independente. Vive na e pela poe- 
sia dos dias, seguindo os (des)caminhos do sul, do aqui-a- 
gora. Publicou vestígios em 2020, com nova impressão em 
2021. Organizou e participou com poema em baRRósas: 
memória e poesia (Selo Mirada, 2021).Tem graduação em 
Letras e mestrado em Linguística Aplicada, pela Univer- 
sidade Estadual do Ceará. Integra a coletiva de mulheres 
“baRRósas”. 





SUGESTÃO DE LEITURA 





END VR Z dese 
LIBERTAÇADE 


Patricia Goncalves Tenório 


Em março de 2020, inaugurei o 
curso on-line e gratuito Estudos em 
Escrita Criativa com o mergulho em 
escritores ingleses, em especial, O 
conto da aiaí, de Margaret Atwood. 


Narrado em uma sociedade distópi- 
ca, mas que nos traz — de maneira apavo- 
rante — muitos dos elementos do mundo 
atual, Atwood nos apresenta a República 
de Gilead, depois do golpe que matou o 
presidente dos Estados Unidos e a maioria 
do Congresso americano. O grupo ditador 


e terrorista é católico e tem como tônica 
afastar as mulheres do mercado de traba- 
lho e deixá-las apenas para serem mães e 
esposas dedicadas. Por causa de vazamen- 
tos químicos e radioativos, a maioria das 
mulheres tornou-se estéril, e aquelas em 
condições de procriar foram transforma- 
das em aias, pertencentes aos comandantes 
do grupo terrorista, perdendo sua identi- 
dade (até mesmo o nome, por exemplo, a 
narradora deixa de se chamar June Osbor- 
ne para ser Offred, ou seja, De Frederic 


1- Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro... [et 
al.). Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, laranda Barbosa... [et al.]. Apresentação: 
Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria 
Cardoso, MarinaPresbítero. Design/Diagramação: RebecaGadelha. 1ºed. Recife: SeloMirada,2021. 


2-ATWOOD,MargaretEleanor. Ocontodaaia. Tradução: AnaDeiró.RiodeJaneiro: Rocco, (1985in)2017. 


25 


26 


Waterford, o comandante proprietário) e 
tendo como único objetivo de vida gerar 
filhos para as famílias às quais pertencem. 


Assistindo ao Fronteiras do Pensamen- 
to de 27 de outubro de 2021”, maravilhei- 
-me com a lucidez dessa canadense de 81 
anos, com mais de sessenta livros publica- 
dos es(ainda) atualmente professora de Es- 
crita Criativa. Ela afirma, de maneira bem 
humorada, que é muito tarde para mudar 
de profissão. Mas o que mais nos interessa 
para esta breve resenha é a proximidade do 
pensamento de Atwood com o dos textos 
das quinze escritoras da coletânea de contos 
e poemas Artemísias: vozes de libertação. 


Organizado, entre outras, por Iaran- 
da Barbosa, Artemísias nos apresenta ca- 
sos dolorosos de abuso sexual, de todas 
as formas possíveis e (in)imaginárias. A 
mulher como temerária, afirma Atwood na 
palestra, e por isso abafada, e violentada, 
e subjugada à opressão patriarcal da nossa 
sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de 
Margaret, despossuída de qualquer direito, 
não está muito longe de vários casos cita- 





MIRADA 


dos no livro organizado (e um dos contos 
escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres 
seguindo o regime patriarcal e condenan- 
do a nós próprias mulheres, por causa de 
roupas ousadas, de vida sexual libertária, 
de se dedicar a uma profissão normalmen- 
te exercida por homens. Mas a escrita in- 
depende de gêneros para nos salvar. Em 
“Teus continentes e os meus”, resenha de 
setembro de 2021 desta coluna “Dois livros 
por mês”, ao analisar Os continentes de 
dentro, de María Elena Morán, cito o caso 


3- O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PU- 
CRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial, 
entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi me- 
diada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/ 


4- Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis 
Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021. 


na vida real de uma pessoa amada que, 
adoecida psiquicamente, teve de ser inter- 
nada em uma clínica. Isso tudo narrei nos 
originais do livro de apenas poucas leitoras 
(três para ser exata), no intuito de preser- 
var a pessoa amada, Caminhos manchados 
de não. O que não mencionei na resenha 
do livro de Morán é que a minha pessoa 
amada também sofreu abuso, tendo como 
consequência o adoecimento psíquico. 


Quantas mulheres que conhecemos, 
inclusive nós mesmas, precisam chegar 
ao fundo do poço, inclusive tirando a pró- 
pria vida, para que façamos algo genero- 
so umas para as outras? Para nos prote- 
germos? Para nos dar carinho, e força, e 
qualidade literária com técnicas refina- 
díssimas (transição de vozes narrativas, 
transformação em linguagem das carac- 
terísticas de personagens, fluidez entre 
os gêneros em um mesmo texto) que en- 
contrei no livro de tantas mãos dadas que 
se chama Artemísias e ecoar, nos quatro 
cantos do planeta, a nossa voz de mulher? 





Patricia Gonçalves Tenório é escritora, 
vinte livros publicados, sendo um deles, 
A baronesa (2020), em formato vídeo- 
podcast. Recebeu prêmios no Brasil e 
no exterior por as joaninhas não mentem 
(2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falas- 
se (2012), A menina do olho verde (2016) 
e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre 
em Teoria da Literatura (UFPE) e douto- 
ra em Escrita Criativa (PUCRS), ministra 
desde 2016, cursos on-line e presenciais 
do grupo de Estudos em Escrita Criativa. 


27 


28 


ninIiL 


ELarbara Assim” 


Almas absortas em copos 


Tragando goles de desterro 
(pausa aprecia gotas translúcidas) 


Profusas letras 
Versos me comem 
As cerejas em bolos 


Jorro todas no vaso florido que resta à tua mesa queimada 
(Cigarro e sol) 

Travessões que passeiam solitários: 

Uns dizem ser loucura 

vociferando aos olhos 

“Derramem!” 


(pausa deglute mais gotas) 


Zappa ao fundo 


1 Palavra do latim que significa nada, coisa nenhuma. 


2 Barbara Assim é o “pseudônimo” de Barbara Caroline Gonçalves, poeta alagoana pelo 


amor e pela dor. 


Desconcertando particulares entes 
Raízes à mostra 

páginas preteridas 

E cada centímetro 


De celulose exposto 


(nada será de proveito, a não ser ao vaso) 


Movimentos circulares 
Inerentes ao copo 
Despedaçando o leito 


Serpentes quebrando ossos 


(Nada demais) 


Dei de parar o assombro 

Dei de correr às meias luas, meio vestida 
Mas nua de colares 

Coroas estúpidas 

Se sobrepõem aos goles 

Cospes no chão 

aquilo que abandonas agora 

Deixando-o lustre de memórias opacas 
Orifícios preenchidos com languidez 
Chovendo risos 


Solo fértil para ser só isso 


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(em dias secos) 


Dois demônios 
Daemon” travesso 
Avesso 


De verso 
(diverso) 


Ela virá rir na tua cara! 

“Lay, lady, lay!” — você berra em desespero 
Osso, açafrão e giro solvendo 

Sustenido dos deuses em uníssono 

Nada transcende o cromatismo de nosso escuro 
Rupias” não pagam as letras tatuadas 

Alma 


(esse antiquário em suspensão) 


Cabra cega em Nova Déli 
Malha ferroviária sem tradução possível 
Impondo altares ao Taj Mahal 


Que venerem o suficiente 


3 Do grego, significa demônio, gênio, espírito. 
4 Música de Bob Dylan. 
5 Moeda oficial da Índia. 


o torpor impresso em teus olhos 
Todavia, há um Gandhi cansado em minhas ruas 
Embrulhando cascalhos ao peito 


E derretendo a aurora 


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AGULHAS 


Desalinhando botões de cor 
Fazendo abrir 

Asas 

bo 


Ca 


se 
ta 

O 

Estrondo 


Visceral 


O 


São vagas 
Entes 
Arrancar de dentes 


As escondidas 


Um pedido de obediência 
à mente 
“Cachorro bobo, bonito” 


Ausência de respostas 


MriM [EN IE 


Eu sou o parêntese 

Guardo o que se subentende 
O que o beiço cala 

Mas a língua sente 

A bala que perfura 
deixando o quente 
Querendo a beleza 

Que, prostrada, doente 
Estendida na mesa 


Varal de serpente 


par-Ente-5I 


Barbara Caroline (Barbara Assim) é uma poeta de Maceió. 


EE Caos (grupo universitário que tem promovido a arte e suas pos- 
sibilidades desde o início da pandemia, em 2020). Está lançando 
em breve seu primeiro livro, Palavras pesadas carregadas por 
E borboletas, onde expõe seu espírito notívago e visceral com uma 
sutileza incomum. O livro deve ser lançado no primeiro semes- 

E, tre de 2021 pela Edições Parresia e atualmente a escritora está 
no processo criativo de seu próximo livro de poesias e em projetos de escrita colaborati- 
va. À poeta escreve com um teor de “caos e fogo” singular, como diria o também poeta 
e seu amigo pessoal Leo Barth, responsável pelo posfácio do referido livro da autora. 
Assim sendo, desfrutamos em sua escrita o que a sensibilidade nos permite vivenciar 
ao mesmo tempo sem perder a inquietude pungente de eu lírico igualmente pandêmico. 





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OBSESBAÃO 


Alê Motta 


Eu atravessava a rua na faixa, o sinal fechado para os carros e ainda assim fui 
atropelada. Por pouco não estourei minha cabeça no meio-fio. O motorista do carro 
grandão que me atropelou não me socorreu e não foi encontrado. 


Mas eu sei o que aconteceu. O motorista brigou com a mulher dentro do carro e 
quando ela falou Quero me separar, ele berrou Vou atropelar a menina aí na frente e 
a culpa é sua, você nunca vai se afastar de mim. 


Faz um mês que ele me atropelou. A mulher dele foi à delegacia semana passada 
e contou tudo. O cara é obcecado por ela. Quando saiu da delegacia ela foi atropelada 
e morreu. 


Fico pensando se o idiota já encontrou uma nova obsessão. 


Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado 
do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. 
Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, 
organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de 
Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos 
(Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista 
Vício Velho. 





É MENINA* 


Carla Guerson 


É menina — sentenciou o médico. 
Dentro do grito que sua avó deu, a sur- 
presa se misturava com a preocupação. 
Menina como eu, pensei, sem saber se 
era alegria ou tristeza o que escorria dos 
meus olhos. 


Hoje eu acho que era medo, filha. 


A gente quando engravida não pensa 
em muita coisa. Você quer um bebê e é 
bem fácil fazer um. Quando você crescer 
eu explico tudo, prometo. Aí vem o re- 
sultado positivo e a gente quase que quer 
pregar na testa para mostrar para todo 
mundo que tem bebê ali dentro daque- 
la barriga molinha de quem comeu muito 
pão de manhã. 


Logo a barriga cresce e todo mundo 
quer passar a mão, quer saber, quer per- 
guntar. É para quando? É menina? Já tem 
nome? É menino? Vai ser parto normal? 
Qual seu médico? Você já agendou o hos- 
pital? 


Acho que foi pelo excesso de pergun- 
ta que eu acabei descobrindo que eu não 
sabia de nada. Que ter um bebê era muito 
mais difícil do que parecia, não era só fi- 
car parada esperando amadurecer, tinha 
um monte de coisa para decidir. 


Tinha que saber o sexo e tinha que 
escolher o nome, o tema do quarto, a cor 
da parede. Tinha que encomendar o kit 
do berço — e eu achando que ter um ber- 
ço já era grande coisa. Eu também devia 
procurar uma doula, fazer ginástica de 
grávida, aula de parto. Escolher o hos- 
pital e escrever um plano. Depois pensar 
nos exames, não pode ganhar muito peso 
e nem tomar coca cola. Cerveja, então, 
nem pensar — mas isso eu já sabia, em- 
bora tenha ouvido dizer que se for só um 
copinho não faz mal. 


Ah sim, e eu tinha que dormir muito. 
Isso todo mundo me falava. Porque de- 
pois, já viu, nunca mais vai dormir. Até 
que isso era verdade, que até hoje eu não 
durmo direito. Se bem que eu acho que 


* Texto do livro O som do tapa, Editora Patuá (2021) 


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nunca fui muito boa de dormir. Nem de 
acordar. 


Mas foi no dia que o médico me con- 
tou o seu sexo que o meu mundo começou 
a desmontar. Porque eu não sabia o que eu 
podia providenciar para te preparar para 
ser mulher aqui junto comigo. Eu não sa- 
bia como te contar das coisas que passei 
e como te ensinar o que eu nunca apren- 
di. E por isso eu chorei, e ainda choro. 


A primeira coisa que eu escolhi foi o 
seu nome. Vai se chamar Helena, como 
a minha avó. E sem querer te marquei 
com tudo o que você vai carregar para 
o resto da vida. Minha herança, o que 
eu tenho para deixar para você, é só 
isso mesmo, esse ser mulher. Mulher 
como eu, como a sua avó e sua bisavó. 


Sua bisa Helena corria pela casa 
o dia inteiro, atendendo uns e outros, 
criou seis filhos, mais um bocado de 
neto e nunca — nunca — tinha um sorri- 
so no rosto. Vó Lena dos braços fortes, 
carregava dois meninos no colo ao mes- 
mo tempo. Matava galinha, puxava bala 
de coco com uma mão só. Não gritava 
com a gente, porque não precisava. Só de 
olhar a gente obedecia na mesma hora. 


O sangue que te corre as veias tem de 
Vó Lena, que virou sua bisa quando játinha 
morrido. Tem também da minha mãe, sua 
avó Célia, que mora com a gente até hoje 
eé o seu xodó. Não sei se ela mora com 


a gente ou se a gente é que mora com ela. 


Mãe Célia que saiu cedo de casa para 
estudar e virou professora. Criou três fi- 
lhos sozinha, botou para fora o marido 
alcoólatra, que ficou morando na casa 
da vizinha, amiga dela. Sua avó Cé- 
lia, que cuida do seu avô até hoje, de- 
pois que a vizinha cansou dele e sumiu, 
largando ele e os cachorros para trás. 


Seu sangue tem de mim também, pe- 
quena, que estou aqui tentando descobrir 
como fazer para ser o que nunca achei que 
teria que ser: exemplo para alguém. Me 
dói saber que você carrega em si tanto de 
uma mãe dorminhoca que não é forte como 
sua bisa nem determinada como sua avó. 
Uma mãe que não soube dizer não para o 
seu pai e acabou engravidando nova de- 
mais, sem nem terminar a faculdade. Que 
esqueceu de dar comida aos peixinhos e 
deixou eles morrerem. Uma mãe que não 
preparou nada e que nem sabe de tudo 
o que devia ter sido para poder ser mãe. 


O que me resta é te desejar sorte. Que 
você tenha em você a bisa que não conhe- 
ceu e saiba que ela era brava, mas cantava 
de noite para os filhos dormirem. Que se 
lembre da avó, que não parava em casa, 
mas que depois nos abriu sua casa quan- 
do a gente mais precisou. E de sua mãe, 
que não sabe ser mãe, mas que teve a co- 
ragem de te assumir e de te querer, quan- 
do seu pai decidiu que não dava para ele. 


E menina, disse o médico. E meu 
chão se abriu. 


É menina e tem tanto para aprender. 
Tanto para escolher. Tanto para receber. 


E menina. Como eu. 





Carla Guerson é escritora, feminista, ge- 
miniana e a favor dos incômodos. Escre- 
ve contos, crônicas e poemas e tem textos 
publicados em diversas revistas literárias, 
coletâneas e antologias. O conto É me- 
nina integra a coletânea O som do tapa 
(Editora Patuá, 2021), seu primeiro livro. 


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MEA CULPA 


Milena Martins Moura 


cai pro lado 
de pernas abertas 
como bailarina 
e baba sílabas molhadas. 
mea culpa. 
mea culpa. 
a cabeça encosta no chão 
com uma força que sangra. 
mea culpa. 
o piso quente 
denuncia o calor 
do sangue 
e do rio de janeiro. 
45 graus, uma temperatura ímpar. o 
frita-se um ovo no capô. 
mea culpa. 


fui eu que cortei aquela árvore 


* Poema que integra o terceiro livro da poeta carioca Milena Martins Moura, A Orquestra 
dos Inocentes Condenados (Editora Primata, 2021). “Orquestra” foi escrito durante a pande- 
mia da Covid-19 e enfrenta os efeitos nocivos da solidão e do medo provocados pelo isola- 
mento social, trazendo pensamentos sobre a finitude e a fragilidade da vida, memórias nos- 
tálgicas fundantes e uma discussão necessária sobre a neurodiversidade entre mulheres. 


e a carne dos meus braços 
no dente. 

é meu o ódio quente 

a cada nota assoviada 

e talher balbuciando 

percussão na louça. 

é porque eu vim errada 

a um mundo quente 

e o meu rosto vermelho 
chama. 
mea culpa. 

cai pro lado 

e executa 

a última pena. 


se fere de morte 


durante um recitativo chato. 


a plateia só veio 
porque era de graça. 
para eles 
todo infeliz é vilão: 

e. ai de mim, 


que vim confessar. 





Milena Martins Moura nasceu no subúr- 
bio do Rio de Janeiro em 1986. É poeta, 
editora, tradutora e mestre em Literatura 
Brasileira pela Universidade do Estado do 
Rio de Janeiro (Uerj). Publicou também 
os livros Promessa Vazia (2011, contos), 
Os Oráculos dos meus Óculos (2014, poe- 
sia) e Banquete dos Séculos (edição da 
autora, 2021, poesia). É editora da revista 
feminista cassandra e integra as equipes 
de colunistas da revista Tamarina Lite- 
rária e de poetas do portal Fazia Poesia. 
Tem poemas e contos em portais e revis- 
tas como Subversa, Torquato, Mallarmar- 
gens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Ara- 
ra, Kuruma'tá, Aboio, Arribação, Totem 
Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru). 


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TRECHO DO “LIVRO 
“O DLALOGO”* 


luiZza MilcZzanowski 


No início, L.C. não tinha um nome. 
Seu nome era apenas Homem. Ele era o 
Homem, a figura do homem. Ela o amou 
como se ama um homem sem identida- 
de. Quando conheceu Leonardo, não foi 
no sexo que o amor se constituiu. Amou 
Leonardo no primeiro momento em que 
olhou para ele - como poderia ter ama- 
do qualquer um. Olhou para Leonardo e 
o criou. Foi ela que o criou, que criou a 
relação dos dois e um amor que ainda não 
existia. Foi no primeiro olhar de Leonar- 
do que soube. Foi ela que criou L.C. Foi 
criação sua. Ele não teria tido importân- 
cia alguma se ela não tivesse precisado 
criar sua importância. Em um primeiro 
momento, amou Leonardo como se ama 
uma borboleta. Queria amá-lo como se 
ama uma folha em uma árvore. Era um 
amor contemplativo - ela queria olhar 
L.C., apenas olhar para ele, vê-lo à distân- 
cia, talvez tocá-lo uma única vez. Era um 
amor de tons róseos que corria no vento. 


* O Diálogo, editora Penalux, 2021. 


Um amor de olhar. Um amor irreal. Ela 
queria amar, desde o princípio, algo que 
não fazia parte da realidade. Queria amar 
uma fantasia. 


O grande problema é que Leonardo 
C. se tornou real. Sua realidade trouxe 
problemas que ela não soube controlar. 
Não estava preparada para a realidade de 
L.C., para sua existência como pessoa. 
Leonardo sempre foi algo que deveria ter 
feito parte apenas do Leonardo espectro, 
do Leonardo-diálogo. 


É mais fácil falar sobre abstrações, 
sobre sensações, do que sobre o que foi 
L.C. Porém, precisa pensar em Leonardo 
como ser que existiu, como pessoa- 
realidade. Precisa pensar em L.C. no 
momento em que seus corpos existiram, 
juntos, como indivíduos corpóreos. A 
importância dessa realidade existe apenas 
em si. Agora o segredo é só dela. Agora 
não tem importância. Viu Leonardo pela 
primeira vez e, nessa primeira visão, ela 


o criou. Amou essa Criação, essa parte de 
si mesma. L.C., por outro lado, foi pessoa 
real. Existiu. E essa existência dupla 
se convergiu em certo momento. Ela- 
existência e Ele-existência. É assim que 
duas pessoas se conhecem: como dois 
planetas que colidem. 





Luizza Milczanowski escreve poesia e 
prosa, mais associada a gêneros híbridos 
ou experimentais. Além de O Diálogo 
participa das coletâneas do Prêmio Off 
Flip de Literatura 2021 nos gêneros Poe- 
sia, Contos e Crônica, da antologia Entre 
Janelas, vol. II (2020) da Oribê e da Cole- 
tânea Conpoema do concurso de poesias 
Professor Roberto Tonellotti. Já colabo- 
rou, ainda, com diferentes revistas literá- 
rias como a Revista Philos, Intransitiva, 
Subversa, Inversos, LiteraLivre, Valki- 
rias, Ventania e RelevO. Escreve ensaios, 
principalmente sobre Vladimir Nabokov, 
autor cuja obra divulga pela página “Na- 
bokovia”. 


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QUASE 


ARES) E 


Germana Accioly 


Acordei sentindo o corpo todo meio 
dormente, meio vibrando. 


Um -sono absolutamente profundo, 
um despertar lento, relutante. 


Aliás, a palavra é relutante. 
Lutei muitas vezes. Insisti em perder. 


Relutei por anos em aceitar. Acolher. 
Refusei oportunidades, me escondi atrás 
de tantos fantasmas. Meus esconderijos 
quase perfeitos. 


Eu, meu principal algoz, dando voz 
a todos os comentários. Vestia a fantasia 
alheia e dela me apossava. 


Capaz de criar tantas realidades, des- 
ci dos meus palcos, apaguei as luzes e me 
fechei no camarim. As cortinas seguiram 
abertas, sinalização para saída de emer- 
gência, fuga tragicamente planejada. 


Mas, por maior que seja o bunker, um 
dia há que se abrir a porta e buscar água, 
comida, ajuda. Por mais perfeito que seja 
o disfarce, em algum momento a maquia- 
gem borra, o chapéu voa, a máscara cai. 


Foram muitos os passos. Primeiro, em 
círculos infundados, encontrando descul- 
pas vazias baseadas num sentimento em 


nada parecido, mas denominado de amor. 
Depois, muito depois, novos caminhos ti- 
tubeantes, cambaleantes, trôpegos. 


Reabilitação para a vida. 


Reaprendi a respirar, a nadar nas mi- 
nhas águas turvas e bravas, a amar o que 
é meu. Uma passagem nem sempre linear. 


Eis que hoje eu acordo sentindo dife- 
rente. Acolhendo meus prazeres, reivin- 
dicando minha memória, reconstruindo 
minha história. Eu não sou o desenho do 
passado. Eu não sou o decalque das déca- 
das nostálgicas. 


Bordo com palavras meus novos so- 
nhos. Faço e refaço pontos que eu mesma 
criei. Misturo as cores que me aprazem. 
Acalmo minha pressa de viver, alimento 
a fome de ser. 


Não me incomoda reciclar, reutilizar 
ou repaginar sentimentos. Não tenho a 
avidez capitalista do novo, do exclusivo, 
do todo meu. Vou trazendo na bagagem o 
que ainda me apraz. Carregando o peso 
que posso levar sozinha. 


Aliás, esta foi a lição mais difícil de 
aprender. Fazer a mala para aquela via- 


gem e só levar o necessário. Passei a fazer 
o exercício do minimalista. Experimentar 
o pequeno como se fosse o fundamental. 


O escasso, sem restrição. 


Divagando e brincando com as pala- 
vras, me dou conta que ainda estou deita- 
da, respeitando o ritmo do meu despertar. 


Quase tarde, mas ainda manhã. 


Há tempo para celebrar o domingo 





Germana Accioly, 49 anos, é recifense, 
mãe, ativista dos direitos humanos. For- 
mada em Comunicação Social pela UFPE, 
trabalhou como repórter de TV, editora e 
apresentadora. Tem especialização em Cul- 
tura e Comunicação (AGECIF, Paris) e em 
Política e Representação Parlamentar (Ce- 
for, Brasília). No campo da música, estudou 
piano erudito por 15 anos. Também atuou 
como atriz de teatro e TV. Em temporada na 
França, fez estágio na Comedie Française. 
Foi assessora de comunicação da Orquestra 
Sinfônica Jovem do Conservatório Pernam- 
bucano de Música e de diversos projetos 
culturais. Em 2021, publicou seu primei- 
ro livro Não é sobre você (Selo Mirada). 


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PACÓJICIPADAM DESTA EDIÇÃO 


Fotografias 


Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro Produções. 
Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista na premiação da 
Revista BRAVO, Apuéê, 2011 (Curta) na AIC - Academia Internacional de 
Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta Metragem) — premiado em edital da 
TV Câmara e Música na Alma, 2013 -2014, sobre a música de rua Cubana, 
com filmagens em Cuba e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias 
da Psicanálise — Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No 
Gargalo do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC / TV Brasil e em mais 
16 países da América Latina Atualmente é co-produtora do documentário 





A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É 
produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e 
Internacionais. Durante a pandemia, dirigiu a série Horizonte Cinza de um Coração Azul. Site: 
www.cabeloduroproducoes.com. Fotografias p.14, p. 46 e 47. 


Editoração 


Taciana oliveira é cineasta, formada em comunicação social: rádio e 
TV, defensora das causas sociais por vocação, coordena as revistas Lau- 
delinas e Mirada e é editora de Selo do mesmo nome. Natural do Recife, 
é leão com ascendente em leão e lua em virgem. Há anos protela o lança- 
mento de seu primeiro livro, Coisa Perdida, mas um dia ele sai. 


Design Editorial 









, * | - Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa sem 
E; senso de direção. Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. 
Vos Participa da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora. 
“Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura & 
LIBRAS (instagram (mliteraturalibras), escreve no Medium sob o 
'* pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 2020), 
livro de memórias. IG: ()ohmybecka 





MIRADA